Nosso querido Rio Guaíba (que na verdade é lago) não aguentou a pressão e transbordou. Não um problema passageiro, que finda em dois ou três dias conforme a chuva vai abrandando. Como o desastre acontecido há décadas, foram 3 semanas até que a água começasse a baixar novamente em muitos pontos afetados. Milhares de famílias precisando sair às pressas de suas casas, deixando mais que bens, parte de suas histórias também foram afogadas. Lembranças dos filhos em fotografias, momentos registrados do casamento e muitos outros ficaram submersos por mais de vinte dias. Testando nossa resiliência, palavra bonita e romatizada pela época atual para lidarmos com as consequências da fome extrema do sistema econômico, agora tudo está coberto de lama. Os bairros mais pobres, obviamente, foram os mais afetados. Acompanhar a via crucis de tanta gente andando com água na altura do peito, tentando salvar o que era possível foi terrível.
Ainda assim era só o começo da tragédia. Todo dia vivendo o mesmo dia nos abrigos criados às pressas pela cidade para atender uma multidão inconsolável e triste. Todo dia o mesmo dia na casa de amigos e familiares que nos estenderam a mão nessa hora de tamanha necessidade. Resgatando os necessitados, ajudando como possível e tentando sobreviver nesse turbilhão de chuva e sentimentos. Haja força para prossseguir, afinal, como diz uma frase que li em algum lugar: a vida não tá nem aí pro teu planejamento. Mesmo os mais estóicos não passariam incólumes pela tormenta que desabou sobre todos. Mesmo quem não foi diretamente atingido não conseguiu ficar bem. Ora ajudando como voluntários, ora doando, ora tentando equilibrar o trabalho com a nova realidade.
Voltando para ver o estrago nas casas com a baixa das águas, um novo golpe. Móveis quebrados, alimentos estragados e uma vida de construção e dedicação perdida em meio a enchente. É difícil ser forte em alguns momentos. Mesmo na pandemia, com todos os problemas e restrições, ainda tínhamos nosso bastião, nosso lar. Agora nem isso. Somente uma pilha enorme de descarte jogada na rua como um lixo qualquer. Paredes com lama até a altura de nossas cabeças. O chão com uma camada grossa de terra avermelhada, criando um limo viscoso que insiste em se grudar no assoalho e se recusando a sair de casa. Tem vezes que eu entendo, de verdade, a desolação dos que pensam em desistir. É dor demais.
Seguimos apoiando como conseguimos, é bonito demais ver tanta gente formando uma corrente de apoio e solidariedade. Gente que dá seu tempo, sua força, seus recursos para ver o próximo bem. Não há amor sem caridade. Seguimos fortes, mas é extenuante ser forte o tempo todo. Na cabeça de quem perdeu quase tudo (e em alguns casos, tudo), eu imagino que deve martelar o "só mais um dia" incessantemente.
Sejamos, nesse momento, o braço que ampara. Ninguém está bem e todo apoio ainda é bem-vindo. Como escrito por alguém de coração enorme: "Um amigo me chamou para ajudá-lo a cuidar da dor dele. Guardei a minha no bolso. E fui."