segunda-feira, 26 de fevereiro de 2024

Brinde

Olhando uma foto antiga bateu uma nostalgia forte. Eu jovem, uns vinte e poucos anos. Meus irmãos fazendo careta pra foto, a Fran distraída, minha mãe com um sorriso largo. O Neto nem 10 devia ter. A gente não sabia que tanta coisa ia acontecer. Tanta coisa boa e tanta coisa nem tão boa assim. Escrevo com um nó na garganta. Um nó de quem sabe que a verdade é difícil de engolir mesmo: a gente é falho, a vida passa rápido e aprendemos a trocar pneu com o carro em movimento. Precisamos ajustar rápido o rumo, aproveitar as oportunidades e aprender com os erros. Comecei esse texto pensando: "poxa, seria legal voltar com essa bagagem de experiência e fazer muita coisa diferente".


Mas pra que flertar o impossível? É triste, mas a vida é agora. Triste porque percebo o quanto de erros já cometi, meus pecados e problemas que podia ter evitado e que trouxeram até aqui. Mesmo o auto-perdão não apaga as cicatreizes em mim ou em quem deixei. Mas a vida ainda pode ser boa, pode ser melhor do que pensamos. Um dia eu li que a vida é pra isso, te consumir mesmo. A vida é pra ser "gasta", não no sentido de desperdício, mas de não perdermos tempo ou guardarmos aquele vinho pra uma ocasião especial. O hoje é especial. Olho ao redor e vejo pessoas viajando, outras tendo filho, outras comprando casa. Todos tentando dar um sentido à sua vida, fazer valer suas vontades e sonhos. Vejo também muita gente só tentando sobreviver pra ver o amanhã. Gente que se encontra e gente perdida. E no fim é isso que somos, um grande mar de emoções, problemas e sonhos dentro de uma cabeça, tentando dar sentido a isso que vivemos. Ás vezes sem pensar muito no amanhã, às vezes pensando demais e perdendo o sono.


Eu olho pra foto e quero abraçar o Henrique daquela época. Deu tudo certo, cara. Eu tô aqui pra dizer que foi demais. Teve de tudo um pouco nesses quase 20 anos, e aos trancos e barrancos lá foi tu (e eu). Aprendemos que antes de desistir vamos parar e dar um tempo, dar uma volta, dar uma pausa. Que o Henrique do futuro possa ver isso e sorrir. Deu tudo certo mesmo, cara? E que venham mais fotos com caretas espontâneas, para não perdermos o humor no dia-a-dia. Mais sonhos, pra impulsionar essa vela chamada vida. Mais vida, até não que haja mais. É tudo sobre o caminho, não o destino, não é mesmo?


E que sempre haja uma luz, para os que se sentem perdidos; um colo, para os que se sentem fracos da caminhada; e uma cerveja (ou suco de laranja, ou água com gás) para brindarmos com os que seguem aqui com a gente. E um outro brinde pra quem já foi. Que aí do outro lado seja foda demais, e, mesmo não sendo, que o sono sem sonhos seja o descanso merecido por ter enfrentado essa barra e ter lutado até o final.
Para M.

Transbordo

Nosso querido Rio Guaíba (que na verdade é lago) não aguentou a pressão e transbordou. Não um problema passageiro, que finda em dois ou três...