terça-feira, 19 de março de 2024

River

"Show me a sign of troubles in your heart
Spare me your lies and tell me that you're mine
And our bodies float on the river
To the oceans of demise"

Recordo que, da primeira vez que me aventurei no rafting, eu ainda não tinha nenhum fio de cabelo branco. Na casa dos 23 anos, viajei com a equipe de telemarketing de uma empresa que não está me pagando para fazer publi. Lembro da van que nos levou, das gárgulas estranhas na entrada de uma propriedade que passamos (que pesquisei depois para saber mais sobre tão estranhas criaturas), da crush da época e do tombo no água. Eu nunca aprendi a nadar e, pra mim, estar na água é uma sensação estranha. Lembro de na ocasião ter tomado um baita caldo na queda do bote e do susto de não ter apoio para os pés. Mas o colete estava ali e, com as orientações do guia, sobrevivi e fui resgatado (eu sei, um pouco dramático). O segredo foi manter o corpo deitado, a cabeça fora dágua, movimentar um poucos os braços e pernas na direção do instrutor e esperar a ajuda.

Fim de semana passado decidi me aventurar novamente em Três Coroas. Um novo parque, novos colegas, o mesmo medo. É incrível como a história se repetiu, hilário até. A viagem foi tão legal quanto a de anos atrás, a equipe muito recepetiva e a água, me esperando de novo. Nem bem começamos a descer o Paranhana e eu já estava sendo catapultado no rio. Após o primeiro choque, num flash relembrei tudo: cabeça pra fora d'água, corpo deitado, mexa os braços e pernas, vá em direção ao bote. Bati o pé forte numa pedra e lá se foi a sola do meu tênis que já me acompanhava há uns 10 anos. Ele serviu seu propósito. Deixei ir. Pouco tempo depois, estava de novo com o remo na mão, à salvo e descendo com a equipe o restante do trecho no inflável laranja. O restante da jornada foi divertida, com direito a pulos no rio e muita risada.

Muitas vezes a gente se pega experimentando algo muito parecido durante nossa vida fora do rafting. Somos surpreendidos por problemas repentinos, perdas inesperadas, crises tempestuosas. No rio da vida, em alguns momentos tudo que conseguimos é manter a cabeça fora d'água e respirar, especialmente quando perdemos o controle. Deixamos a correnteza nos levar, sempre atentos e tentando nos movimentar em direção a segurança. Lutamos pra isso e, frequentemente, contamos com a ajuda de alguém. Até chegar perto do "barco" de novo, podemos levar mais tempo ou menos, o importante é não desistir. Com o turbilhão cedendo, voltamos à segurança. Diferentes de quando entramos no rio, agora somos mais experientes. Percebemos que cair faz parte, nos ensina. A gente passa a aproveitar mais os momentos de alegria e damos mais valor aos que nos acompanham. E passamos a ver como necessário alguns mergulhos forçados em nós mesmo.

Aprendemos que podemos perder algumas coisas (e pessoas) pelo caminho, suportando a dor como conseguimos. Faz parte. A vida é rio constante, nos leva sempre pra frente e alguns ciclos são encerrados e outros iniciados nesse serpentear infinito de suas curvas. Tudo é fluido e nem sempre teremos controle sobre o que acontece ao nosso redor (na verdade quase nunca). Nossa resiliência é colocada à prova constantemente pois o raso pode machucar com suas pedras, mas o profundo pode nos obrigar a sair da zona de conforto. E pode ser bom. O rio é sobre aproveitar a viagem, vai ter de tudo. 

O desafio maior é tentar chegar ao fim do percurso orgulhosos dos tombos e aventuras que vivemos. Teremos algumas cicatrizes, algumas lembranças e, com certeza, muitas histórias para contar antes de partir de volta pra casa.

Fortuna favet fortibus.
Façamos valer a pena.
Arrisque-se.




Transbordo

Nosso querido Rio Guaíba (que na verdade é lago) não aguentou a pressão e transbordou. Não um problema passageiro, que finda em dois ou três...