quinta-feira, 30 de maio de 2024

Transbordo

Nosso querido Rio Guaíba (que na verdade é lago) não aguentou a pressão e transbordou. Não um problema passageiro, que finda em dois ou três dias conforme a chuva vai abrandando. Como o desastre acontecido há décadas, foram 3 semanas até que a água começasse a baixar novamente em muitos pontos afetados. Milhares de famílias precisando sair às pressas de suas casas, deixando mais que bens, parte de suas histórias também foram afogadas. Lembranças dos filhos em fotografias, momentos registrados do casamento e muitos outros ficaram submersos por mais de vinte dias. Testando nossa resiliência, palavra bonita e romatizada pela época atual para lidarmos com as consequências da fome extrema do sistema econômico, agora tudo está coberto de lama. Os bairros mais pobres, obviamente, foram os mais afetados. Acompanhar a via crucis de tanta gente andando com água na altura do peito, tentando salvar o que era possível foi terrível.

Ainda assim era só o começo da tragédia. Todo dia vivendo o mesmo dia nos abrigos criados às pressas pela cidade para atender uma multidão inconsolável e triste. Todo dia o mesmo dia na casa de amigos e familiares que nos estenderam a mão nessa hora de tamanha necessidade. Resgatando os necessitados, ajudando como possível e tentando sobreviver nesse turbilhão de chuva e sentimentos. Haja força para prossseguir, afinal, como diz uma frase que li em algum lugar: a vida não tá nem aí pro teu planejamento. Mesmo os mais estóicos não passariam incólumes pela tormenta que desabou sobre todos. Mesmo quem não foi diretamente atingido não conseguiu ficar bem. Ora ajudando como voluntários, ora doando, ora tentando equilibrar o trabalho com a nova realidade.

Voltando para ver o estrago nas casas com a baixa das águas, um novo golpe. Móveis quebrados, alimentos estragados e uma vida de construção e dedicação perdida em meio a enchente. É difícil ser forte em alguns momentos. Mesmo na pandemia, com todos os problemas e restrições, ainda tínhamos nosso bastião, nosso lar. Agora nem isso. Somente uma pilha enorme de descarte jogada na rua como um lixo qualquer. Paredes com lama até a altura de nossas cabeças. O chão com uma camada grossa de terra avermelhada, criando um limo viscoso que insiste em se grudar no assoalho e se recusando a sair de casa. Tem vezes que eu entendo, de verdade, a desolação dos que pensam em desistir. É dor demais.

Seguimos apoiando como conseguimos, é bonito demais ver tanta gente formando uma corrente de apoio e solidariedade. Gente que dá seu tempo, sua força, seus recursos para ver o próximo bem. Não há amor sem caridade. Seguimos fortes, mas é extenuante ser forte o tempo todo. Na cabeça de quem perdeu quase tudo (e em alguns casos, tudo), eu imagino que deve martelar o "só mais um dia" incessantemente.

Sejamos, nesse momento, o braço que ampara. Ninguém está bem e todo apoio ainda é bem-vindo. Como escrito por alguém de coração enorme: "Um amigo me chamou para ajudá-lo a cuidar da dor dele. Guardei a minha no bolso. E fui."

terça-feira, 19 de março de 2024

River

"Show me a sign of troubles in your heart
Spare me your lies and tell me that you're mine
And our bodies float on the river
To the oceans of demise"

Recordo que, da primeira vez que me aventurei no rafting, eu ainda não tinha nenhum fio de cabelo branco. Na casa dos 23 anos, viajei com a equipe de telemarketing de uma empresa que não está me pagando para fazer publi. Lembro da van que nos levou, das gárgulas estranhas na entrada de uma propriedade que passamos (que pesquisei depois para saber mais sobre tão estranhas criaturas), da crush da época e do tombo no água. Eu nunca aprendi a nadar e, pra mim, estar na água é uma sensação estranha. Lembro de na ocasião ter tomado um baita caldo na queda do bote e do susto de não ter apoio para os pés. Mas o colete estava ali e, com as orientações do guia, sobrevivi e fui resgatado (eu sei, um pouco dramático). O segredo foi manter o corpo deitado, a cabeça fora dágua, movimentar um poucos os braços e pernas na direção do instrutor e esperar a ajuda.

Fim de semana passado decidi me aventurar novamente em Três Coroas. Um novo parque, novos colegas, o mesmo medo. É incrível como a história se repetiu, hilário até. A viagem foi tão legal quanto a de anos atrás, a equipe muito recepetiva e a água, me esperando de novo. Nem bem começamos a descer o Paranhana e eu já estava sendo catapultado no rio. Após o primeiro choque, num flash relembrei tudo: cabeça pra fora d'água, corpo deitado, mexa os braços e pernas, vá em direção ao bote. Bati o pé forte numa pedra e lá se foi a sola do meu tênis que já me acompanhava há uns 10 anos. Ele serviu seu propósito. Deixei ir. Pouco tempo depois, estava de novo com o remo na mão, à salvo e descendo com a equipe o restante do trecho no inflável laranja. O restante da jornada foi divertida, com direito a pulos no rio e muita risada.

Muitas vezes a gente se pega experimentando algo muito parecido durante nossa vida fora do rafting. Somos surpreendidos por problemas repentinos, perdas inesperadas, crises tempestuosas. No rio da vida, em alguns momentos tudo que conseguimos é manter a cabeça fora d'água e respirar, especialmente quando perdemos o controle. Deixamos a correnteza nos levar, sempre atentos e tentando nos movimentar em direção a segurança. Lutamos pra isso e, frequentemente, contamos com a ajuda de alguém. Até chegar perto do "barco" de novo, podemos levar mais tempo ou menos, o importante é não desistir. Com o turbilhão cedendo, voltamos à segurança. Diferentes de quando entramos no rio, agora somos mais experientes. Percebemos que cair faz parte, nos ensina. A gente passa a aproveitar mais os momentos de alegria e damos mais valor aos que nos acompanham. E passamos a ver como necessário alguns mergulhos forçados em nós mesmo.

Aprendemos que podemos perder algumas coisas (e pessoas) pelo caminho, suportando a dor como conseguimos. Faz parte. A vida é rio constante, nos leva sempre pra frente e alguns ciclos são encerrados e outros iniciados nesse serpentear infinito de suas curvas. Tudo é fluido e nem sempre teremos controle sobre o que acontece ao nosso redor (na verdade quase nunca). Nossa resiliência é colocada à prova constantemente pois o raso pode machucar com suas pedras, mas o profundo pode nos obrigar a sair da zona de conforto. E pode ser bom. O rio é sobre aproveitar a viagem, vai ter de tudo. 

O desafio maior é tentar chegar ao fim do percurso orgulhosos dos tombos e aventuras que vivemos. Teremos algumas cicatrizes, algumas lembranças e, com certeza, muitas histórias para contar antes de partir de volta pra casa.

Fortuna favet fortibus.
Façamos valer a pena.
Arrisque-se.




segunda-feira, 26 de fevereiro de 2024

Brinde

Olhando uma foto antiga bateu uma nostalgia forte. Eu jovem, uns vinte e poucos anos. Meus irmãos fazendo careta pra foto, a Fran distraída, minha mãe com um sorriso largo. O Neto nem 10 devia ter. A gente não sabia que tanta coisa ia acontecer. Tanta coisa boa e tanta coisa nem tão boa assim. Escrevo com um nó na garganta. Um nó de quem sabe que a verdade é difícil de engolir mesmo: a gente é falho, a vida passa rápido e aprendemos a trocar pneu com o carro em movimento. Precisamos ajustar rápido o rumo, aproveitar as oportunidades e aprender com os erros. Comecei esse texto pensando: "poxa, seria legal voltar com essa bagagem de experiência e fazer muita coisa diferente".


Mas pra que flertar o impossível? É triste, mas a vida é agora. Triste porque percebo o quanto de erros já cometi, meus pecados e problemas que podia ter evitado e que trouxeram até aqui. Mesmo o auto-perdão não apaga as cicatreizes em mim ou em quem deixei. Mas a vida ainda pode ser boa, pode ser melhor do que pensamos. Um dia eu li que a vida é pra isso, te consumir mesmo. A vida é pra ser "gasta", não no sentido de desperdício, mas de não perdermos tempo ou guardarmos aquele vinho pra uma ocasião especial. O hoje é especial. Olho ao redor e vejo pessoas viajando, outras tendo filho, outras comprando casa. Todos tentando dar um sentido à sua vida, fazer valer suas vontades e sonhos. Vejo também muita gente só tentando sobreviver pra ver o amanhã. Gente que se encontra e gente perdida. E no fim é isso que somos, um grande mar de emoções, problemas e sonhos dentro de uma cabeça, tentando dar sentido a isso que vivemos. Ás vezes sem pensar muito no amanhã, às vezes pensando demais e perdendo o sono.


Eu olho pra foto e quero abraçar o Henrique daquela época. Deu tudo certo, cara. Eu tô aqui pra dizer que foi demais. Teve de tudo um pouco nesses quase 20 anos, e aos trancos e barrancos lá foi tu (e eu). Aprendemos que antes de desistir vamos parar e dar um tempo, dar uma volta, dar uma pausa. Que o Henrique do futuro possa ver isso e sorrir. Deu tudo certo mesmo, cara? E que venham mais fotos com caretas espontâneas, para não perdermos o humor no dia-a-dia. Mais sonhos, pra impulsionar essa vela chamada vida. Mais vida, até não que haja mais. É tudo sobre o caminho, não o destino, não é mesmo?


E que sempre haja uma luz, para os que se sentem perdidos; um colo, para os que se sentem fracos da caminhada; e uma cerveja (ou suco de laranja, ou água com gás) para brindarmos com os que seguem aqui com a gente. E um outro brinde pra quem já foi. Que aí do outro lado seja foda demais, e, mesmo não sendo, que o sono sem sonhos seja o descanso merecido por ter enfrentado essa barra e ter lutado até o final.
Para M.

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2024

Salt

Sometimes life gets hard. You strugle to find a way out of the confusion that is in your head. To fight the lonelines and transmute this into solitude. You strugle to find joy in your routine, and you go from "ok" to sadness in a blink of an eye. The old friends are far, facing their own battles or gone. Family has their own business, their own shit to deal. And the blank space is a ghost in the living room. There is some relief at the work. You see familiar faces, you feel useful and the bills are paid monthly. You still functional, you cook, you go to the gym, you still bath everyday. But deep down you’re broken. You’re a damaged machine. It’s hard to keep this going on. This life, this kind of life. There’s no goal, no north. No wind is good for my sails. No harbor is safe. No shore brings joy and smile. I’m used to the salt and sun.

I became bitter and silent, slowly losing confidence. The pursue of time is an already lost battle. Now I count my years backwards. Maybe I have another 20 ahead of me. Maybe less, maybe more. It doesnt really matter now. I think I lost the will to live the moment I reallized that I had lost my most precious treasure. It took me so much time to see this. Time I could had used to regain us. To regain me. Or maybe to get lost forever. It’s said that there’s a god above. That everything has a time and a reason to happen. But I look around and see no invisible hand to alleviate the pain. Everyone I know is fighting an invisible war inside their minds. We’re broken and torn apart. By wind, by salt, by sun. We’re dryed to the bone, and tired as well. We’re the marching dead. The unliving that refused to lay down. The ones that keep going on, although don’t knowing the reason nor the way. 

The voices once only inside my head now find way through my mouth, through my fingers. Only exhaustion brings peace in the bed, and the road to Morpheus gets harder to find every passing night. I keep on walking, more for the ones I care than for myself. It would be a terrible burden into the afterlife, if there’s one. To give up. But no, I keep on walking. Salt in my wounds, the sun in my head. No solace, no redemption. Just one step after another. One more. One more...

Transbordo

Nosso querido Rio Guaíba (que na verdade é lago) não aguentou a pressão e transbordou. Não um problema passageiro, que finda em dois ou três...